quarta-feira, 23 de maio de 2012

Quando os dias passam e não parecem passar

As nuvens continuam carregadas e não parece que vai melhorar.

Sou de vidro. Tudo o que eu preciso é que me arremessem um nome, e lá se vão meus estilhaços. Estou cansado das pessoas e dos dias e das noites. Quero meu tesouro de volta, meu doce, meu lar, meu ar.

Me olho no espelho e não parece que vou melhorar.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O que é amor?

É arrependimento?
É amargura?
É rancor? Luto? Bravura?

Uma cama grande, fria demais?
Um travesseiro insuportável sem o teu cheiro?
É o ódio desses quadris teus?
É inveja dos próximos, raiva dos íntimos?
É o medo, irremediável e irremovível, da vida, dos outros, da fortuna e dos vivos?

É amor o bilhete de um trem já perdido? Amassado no bolso, feio, partido?

É estar só há tanto tempo na estação?
Esse fantasma, pelo amor de Deus, é da paixão ou é apenas assombração?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Diversão na noite


Não pensei que voltaria

As paredes estão descascadas, percebi quando entrei. O tempo foi cruel com elas. Há mofo e sujeira por todos os lados. A tinta desbotou, e de certa forma as paredes parecem mais cruas.

Como sempre os lamentos e as amarguras continuam presentes. Com esses o tempo apenas contribui. Eles estão diferentes, entretanto. Quando os anos nos afastam das mágoas, elas nunca chegam a se apagar, ainda que as vezes precisemos mencioná-las. Percebi que trazidas assim dessa forma elas se tornam muito mais íntimas, se cria uma certa afinidade. Como velhas inimizades da infância, já perdoadas quando as manchas da idade surgem nas mãos. E elas parecem lembrar de mim.  São como ratos que correm para me receber quando abro a porta. E quem diria, trago comigo alguns ratos novos também.

Está tudo escuro. A triste verdade é que nenhuma janela foi aberta desde a primeira vez que pisei aqui.

Pensei ter encontrado uma janela, mas me enganei. Passei os últimos anos encarando uma paisagem lindíssima que provou-se nada mais do que um quadro. Muito bem pintado, mas ainda pintado. Não havia vento que movessem aquelas folhas e aquele campo verde, apenas pinceladas que tentaram fazer o mesmo trabalho. E mesmo assim me enganei, repito.

Assim como este lugar, estou mais velho. Estou desbotado também, e rachado. Nunca me preocupei em remendar o que se partiu. Para quê? Deixe que vejam. O descuido e o descaso parecem ser amigos novos que a velhice me apresentou. Há o desinteresse também, o maior dos três.

Estou velho. Envelheci muito em poucos anos. Qualquer um pode enxergar isso. Mas ao contrário do que podem pensar, não foi o sol que descascou minha pele e castigou meu corpo. Para este eu estava preparado, ao menos pensava estar. A perna que me derrubou foi a do vento. Esse sim, soprou a força para fora de mim. Sem a proteção dessas paredes, o vento soprou e agora meu fogo está muito mais brando.

E a dor?

A dor ganhou cabelos brancos. Ela não tem a mesma força. Até ela está triste e apática. A intenção era a de deixá-la trancada aqui para nunca mais vê-la, mas sempre fomos rivais, não pude me surpreender ao descobrir que me seguira. Deveria ter ficado, eu digo para ela. É triste vê-la como este animal abatido, reparar como seus olhos não tem mais o brilho e a malícia que marcaram tanto essa minha companheira cruel. Ela era uma leoa feroz, uma besta irracional e sem controle. Agora faltam alguns dentes, a pelugem está cinzenta. Eu acho que ela também está cansada, decepcionada. Minha dor pode muito bem ter percebido que afinal não somos tão inimigos assim.

"Minha querida..." digo a ela.
"...somos um só. E esse é o nosso lar."



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Eraumavez.

Bati
Caí
Cortei
Queimei
Chorei
Odiei
Mordi
Gritei
Enraiveci
Enlouqueci
Quebrei
Desabei
Matei
Sumi.
















Esqueci.













Voltei.
Respirei
Olhei
Esperei
Não aguentei
Tentei
Surpreendi
Agradeci.









Sorri.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

O azul, ele vem em ondas

e de repente explode em mim. Se abro os olhos, não sou eu mais que aqui estou.
Aqui é o agora, agora é o que respiro. E isso tudo é aquilo que expulsei do meu pulmão.
é difícil de descrever, essa mudança de humor, esse estado de alteração.

A pele arrepia, como todo instinto animal
O calor é insuportável, como antes de todo temporal
A visão se distorce em luzes, já estou fora do estado natural

E então vem, ele, o azul.
Ele passa e me leva tudo em arrastão.
A coragem, a disposição...
a disponibilidade, a concentração...
a bondade, a inspiração...

resta-me só a péssima companhia
da maldade e da imaginação.

Esse trem passa e eu ali, nos trilhos,
ele é fantasma que é não assombra e sim recorda, me recorta.
Quando vem o azul, viro cachoeira.
Só sei desaguar em rio longe, me estico até o horizonte, sinto todas minhas margens tocar até não sei onde.

Ai que tortura!
Mas ela chega ao fim, não demora.
Os demônios vão embora,
esse estupro é veloz.

Ali estou eu de joelho no chão, ferida na mente, arrependimento e oração... às ganas de concluir o sacrifício e entregar de uma vez esse maldito coração gordo, estúpido, atroz.
Enfio uma tesoura no cancro que cresce em minha cabeça e deixo o chorume escorrer para o teclado.

me desculpe se te respingo, são medidas que necessito para viver...

A VERDADEIRA SANGRIA

é maior atrocidade que pode-se fazer por vingança.
é extinguir toda gota que houver em você
daquilo que um dia alguém já admirou.

é matar quem você já foi e quem poderia ser,
punindo ao máximo sua própria alma pelo crime
que você finge que a outra pessoa já julgou.


sei que é errado

mas tudo o que eu não quero é que você seja feliz.

sábado, 16 de outubro de 2010

Nunca quis me aproximar de Deus

Preciso é me afastar dos homens.