segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Chega aquele dia

Chega aquele dia em que é difícil não caminhar olhando para o chão; quando mergulha-se no oceano de insatisfação, indefeso, como em um coletivo arrastão, deixa-se levar e levar esperando quem sabe as águas o calar.

Chega aquele dia em que respirar não possui sabor, a comida não traz amor, o sol é frio e já sem seu ardor, a noite é longa e inquieta, minha nossa! Quanta dor! Vem a segunda, vem a terça, vem a quarta e todas mais. Os dias se repetem vazios de cheiros e de conquistas. Os olhos queimam antecedendo o choro que teima em sair e não sai, aqui, no trem ou ali também.

Chega aquele dia em que a mente desapontada é a mente sã, que parece sentir que todo vinho vira vinagre, todo leite azeda, toda flor apodrece e todo ser humano padece, esteja vivo, esteja morto.

Chega aquele dia, e se pensa que o que era bom era um sonho sonhado de olhos fechados. A verdade é dura e crua e nua. A verdade de não conseguir olhar nos olhos dela, a verdade de não gostar de cumprimentar o vencedor, a verdade de não ter coragem de pedir desculpas ou de desculpar. A verdade de que a todos aquele dia há de chegar.

E lamenta-se.

Acordam ao choro, caminham em coro, não vêem brilho no ouro, só pensam na sua dor, em seu corte, em seu couro. São as pessoas sem esperança que não vêem aquele dia chegar. Fisgadas pelo coração em uma pesca auto-destrutiva.

Todo Hércules morre, toda Mona Lisa perde a cor, todo Einstein emburrece.

Todo dia passa.

Mas chega aquele dia e deseja-se, no fundo, que ele fique. O lamento é a companhia do desesperado, o choro é o pedido de ajuda do há pouco nascido e a tristeza é o cobertor que aquece e porta o fardo.

Chega aquele dia, e quando ele chega, torna-se semanas. Torna-se meses. Torna-se anos. E você torna-se morto.

Quando chega aquele dia, e se abre os olhos, e se vê o ruim, e entende que o bom é sonho, se esquece que ainda é possível fechar os olhos. E voltar a sonhar.

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