Um textinho que reencontrei, escrito para a cadeira de Língua Portuguesa II, homenagem às desventuras imaginadas em um tempo que não existiu e que bem que poderiam ter sido vividas pelo meu colega Leandro Rodrigues.
VITÓRIA
No rádio, minha fita cassete do Roberto tocava a mil. O dia estava bonito, passarinhos para todo lado, velhinhas atravessando a rua bem devagar, eu e meu amigo lagarteando dentro do carro estacionado. Dia normal, até que olhei para o lado, e logo fui enfeitiçado. A menina da pele preta subia a rua, e subia com o vestidinho amarelo. Famigerado vestidinho amarelo, que dele todos falavam, e somente fui entender o porquê do alvoroço ao pôr meus próprios olhos na roupinha diminuta. Conheci muitas mulheres naquele tempo, mas nenhuma que tivesse perfume e música. Ela passou ao lado do meu Chevette, e dentro dele pude sentir o cheiro de baunilha e o som dos sinos. Que boca. Que rebolado. Que vestidinho amarelo.
Aquela só podia ser a Vitória, a falada, a comentada, a desejada. Agora eu entendia perfeitamente quem era Vitória, e porque era tão almejada. Era banhada em mel e magia, era dotada do charme e do rebolado cujo poder não pode ser transmitido através de palavras, somente através da imagem. Aquela era a entidade espiritual e carnal que deixava homens sem sono e sem dinheiro. Aquela princesa da beleza e inocência, mestra dos homens abobalhados. Precisei, então, a partir daquele momento, que ela me reparasse, curtisse meu penteado irado, minha jaqueta da hora e minhas sandálias pra lá de tererês.
Vendo aquela deusa, bicho, uma explosão de sentimentos corroeu meu corpo adoidado. Nem as músicas mais dez da Jovem Guarda me puxavam tanto a batata quanto aquele cheiro, aquela pele, aquelas pernas. E eu estava ouvindo Rei, a situação não era brincadeira. Lembro dela lá, rainha liberta, corpo escuro, brilhante do sol, voando em cima de pernas perfeitas, e eu dentro do carro, preso, confinado como animal, eletrificado com meu topete de Xororó, minha blusa cuidadosamente aberta para revelar meus pêlos dorsais, minha jaqueta vermelha, e até minhas costeletas totalmente ligadas naquele imã, como que movido por um magnetismo psicodélico muito do louco. Aquela magia toda foi aumentada quando o rádio soltou Amor Sem Limites. Oras, se o Rei falou, tá falado.
Eu precisava falar com ela, eu precisava abordá-la, eu precisava ouvir o mel de sua voz, eu precisava apresentá-la ao Chevette Azul. Eu sabia que ela era tudo na minha vida. Nunca pensei que pudesse existir no mundo um amor como aquele. Ela, afinal, jamais resistiria a Lelê Galinha, azarador Porto Alegrense, sorriso de estrela, olhos de luar. E o amor explosivo era sincero, e a paixão formigava dentro de mim como uma erupção de um vulcão prestes a fazer kabum. Cutuquei Tigela, meu parceiro arretado, para que ele acordasse. Em um sonoro “ora pipocas!”, ele se mostrou bem acordado quando eu apertei o turbo do possante.
Bicho, arrancamos tão forte do chão que Tigela quase deixara seu bigode loiro para trás. Eu sentia o coração na garganta, enquanto acelerava em direção da mulher. Vitória seria minha, e mesmo se não fosse, precisava chegar perto. Sentir o cheiro suave do perfume dela, olhar aqueles olhos pequenos e pretos bem de perto. Como um animal, um predador avançando sobre a presa, acelerei. Ela estava longe, bem longe. Meus devaneios haviam me deixado zureta, viajando legal, tipo hipnotizado por aquele talismã tribal vindo da África direto pra minha visão. Ela estava lá na esquina, dobrando pra outra rua, só precisava virar. Respirei fundo, enchi os pulmões, rezei baixinho, e só então me dei conta que Roberto Carlos tocava para mim Aquele Beijo Que Te Dei. Tigela com certeza se apovorou quando eu comecei a berrar feito louco, porque precisava beijar a mulher e compartilhar do sentimento do Robertão.
Estava preparado para largar minha vida de mulheres e vícios e música e discotecas e Bee Gees, estava preparado para casar e virar homem trabalhador, estava preparado para tudo, quando dobrei a esquina cantando pneu.
Então o feitiço acabou. Pensei melhor, afinal de contas. Diminui a marcha, tirei o pé do acelerador, deixei o Chevette relaxar. Não precisava dela, afinal. Eu era Lelê Galinha, baita trovador, maior dançarino de mambo do Brasil meridional, tri cheio da graça e o único do bairro a ter Loki em casa, em vinilzão. O policial grandalhão que abraçava a morena fogosa e dava um beijo nela, nem teria sido problema, afinal, SE eu quisesse realmente ela. Pra quê, afinal, ter a mais falada, quando podia ter todo o resto? Ela nem era tão bonita. Dava pra ver, quando o PM de cento e vinte quilos a levantou, que Vitória tinha celulite, e era bem narigudinha. Nunca tinha sido fã de amarelo, afinal, e nem respondi quando Tigela me perguntou o que havia acontecido. Mandei ele ficar relax, botei meu rayban e aumentei o volume de Você Não Serve Pra Mim.

2 comentários:
Bicho, esse escrito ficou maneirasso. Viajei legal na psicodelia descritiva.
hauhauhaua
Brincadeira, mas muito tri.
Fala sério...
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