terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lágrima alguma vem do nada.

LÁGRIMA
ALGUMA
VEM
DO
NADA

Custoso para crer

Mas eu do ano retrasado falei para mim agora que lágrima alguma vem do nada.

Inveja daqueles dentes brancos

As vezes você deve dizer a si mesmo que morreu por dentro. Em um passe mágico a raiva, a inveja, o rancor, a amargura dirigida ao mundo perderão o sentido. Até você se esquecer.

É um palco diário, um palco diário

Essas velhas máscaras felizes já não me servem, meu amigo.
Sempre que é noite e chego em casa sozinho, elas se descolam por causa do rosto molhado.
E toda noite eu juro diante das estrelas que nunca mais vou vesti-las.

Mas na manhã seguinte lá estou eu, e nem mesmo me dou conta.
Só lembro de minha situação quando passa da metade da noite.
Talvez eu as vista enquanto durmo.
Talvez eu só durma quando as visto.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Montanha

Era um sujeito que acima de tudo, considerava a importância do queixo erguido.
Chamavam-no montanha, e contra tudo e contra todos, vivia assim.
Eram muitas as maldades do mundo. Castigavam-lhe as pernas, moíam-lhe o peito. Castravam suas bolas, cuspiam seus afetos.
Era solitário, e isso o afetava profundamente. Por muito tempo ele passou sem saber, e quando soube, nunca deixou que ninguém soubesse. O importante era manter-se digno. E como era digno.
Montanha sentia vontade de uivar. Via neste lamento o desafogo do fogo de sua alma. Nada lhe encantava. A lua, essa sim, ele respeitava. Aquela, entretanto, não era uma época para uivos, de modo que jamais soltou um único latido.

Os olhos acima do horizonte permaneciam lá e já não eram necessários. Suas mãos respondiam perfeita e mecanicamente aos seus desejos. E era através da dança de seus dedos que ele expressava-se, em silêncio, quando sentia que algo metafísico cobria-lhe os ombros nas noites mais frias.

Sempre fui de invejar sua capacidade exímia do exercício da impassividade. Eram olhos bem distantes e de vidro escuro aqueles que ele possuía, valor inestimável para quem sabe aproveitar a lembrança. Podiam falar tudo e qualquer diante daquele volumoso e bonito queixo, e nada, absolutamente nada acordava, muito menos rugia como um bicho, dentro da caverna que ele, como todos os homens, escondia dentro de sua cabeça.
Não.
Haviam somente uivos inacessíveis dentro da montanha.

Percebo que vamos embora devagarinho, aos poucos para ninguém perceber.
Sinto um cansaço agora, indisposição. A paciência vai embora, junto vai o tesão.
Não pude gostar, tampouco tocar.
Diminuem os sorrisos, chegamos a poupar o tempo de encontrar novos conhecidos. Lembrar dá vontade de chorar, e também dá quando se pára pra pensar.
Morremos assim, de tantinho em tantinho, por dentro, antes da carne despertar.
Essa morte não vem ao natural, porque matamos uns aos outros, uma mordida por vez.
Hoje me tomam o orgulho, ontem foi o coração.
Um passinho de cada vez, fica até mais fácil aceitar. Não tem beijo quente, risada amiga ou noite cheia que me sustente.
Quero ir embora, estou farto de pelos outros me cansar...