Era um sujeito que acima de tudo, considerava a importância do queixo erguido.
Chamavam-no montanha, e contra tudo e contra todos, vivia assim.
Eram muitas as maldades do mundo. Castigavam-lhe as pernas, moíam-lhe o peito. Castravam suas bolas, cuspiam seus afetos.
Era solitário, e isso o afetava profundamente. Por muito tempo ele passou sem saber, e quando soube, nunca deixou que ninguém soubesse. O importante era manter-se digno. E como era digno.
Montanha sentia vontade de uivar. Via neste lamento o desafogo do fogo de sua alma. Nada lhe encantava. A lua, essa sim, ele respeitava. Aquela, entretanto, não era uma época para uivos, de modo que jamais soltou um único latido.
Os olhos acima do horizonte permaneciam lá e já não eram necessários. Suas mãos respondiam perfeita e mecanicamente aos seus desejos. E era através da dança de seus dedos que ele expressava-se, em silêncio, quando sentia que algo metafísico cobria-lhe os ombros nas noites mais frias.
Sempre fui de invejar sua capacidade exímia do exercício da impassividade. Eram olhos bem distantes e de vidro escuro aqueles que ele possuía, valor inestimável para quem sabe aproveitar a lembrança. Podiam falar tudo e qualquer diante daquele volumoso e bonito queixo, e nada, absolutamente nada acordava, muito menos rugia como um bicho, dentro da caverna que ele, como todos os homens, escondia dentro de sua cabeça.
Não.
Haviam somente uivos inacessíveis dentro da montanha.